Qual é a função social da fé em um país desigual?

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Mariano Alves Junior*

O Brasil convive, há décadas, com desigualdades profundas que se expressam no acesso desigual à educação, à saúde, à moradia e às oportunidades básicas de desenvolvimento humano. Diante desse cenário, torna-se inevitável uma pergunta incômoda para quem professa a fé cristã: qual é o papel da fé em um país estruturalmente desigual? Trata-se apenas de uma experiência individual, restrita ao campo da espiritualidade privada, ou de uma convicção que se manifesta também na vida pública e nas relações sociais?

A tradição cristã reformada oferece uma resposta clara. Não existe separação legítima entre fé e responsabilidade social. A espiritualidade cristã, quando coerente com o Evangelho, atravessa todas as dimensões da vida, pessoais, comunitárias e sociais. Fé que se limita ao discurso ou à prática religiosa interna perde sua força transformadora e se distancia do testemunho bíblico.Publicidade

A Escritura é explícita ao vincular fé e ação. O profeta Miqueias resume essa vocação ao afirmar que Deus requer do ser humano justiça, misericórdia e humildade (Mq 6:8). No Novo Testamento, o apóstolo Tiago é ainda mais direto ao afirmar que a fé que não se expressa em obras concretas está morta. Não se trata de negar a centralidade da graça, mas de reconhecer que a fé autêntica produz frutos visíveis na forma como o cristão relaciona-se com o outro, especialmente com os mais vulneráveis.

Jesus, ao contar a parábola do bom samaritano, desloca o debate religioso da retórica para a prática. A verdadeira fé não se mede pela identidade religiosa ou pelo discurso correto, mas pela capacidade de reconhecer o próximo na dor do outro e agir com compaixão concreta. Esse ensino permanece profundamente atual em uma sociedade marcada pela indiferença e pela normalização da desigualdade.

Na tradição reformada, João Calvino enfatizou que os bens materiais não são propriedades absolutas, mas dons de Deus confiados às pessoas para o bem comum. Ignorar a necessidade do outro, segundo ele, não é apenas uma falha moral, mas uma contradição direta da fé cristã. Essa compreensão moldou, ao longo dos séculos, uma ética que valoriza educação, assistência social e cuidado com os mais frágeis, reconhecendo em cada pessoa a dignidade de portar a imagem de Deus.

Pensadores reformados posteriores, como Abraham Kuyper, ampliaram essa visão ao afirmar que não existe área da vida humana fora da soberania de Cristo. Isso não significa instrumentalizar a fé para fins partidários ou ideológicos, mas reconhecer que cristãos são chamados a contribuir para o bem comum, promovendo justiça, dignidade e responsabilidade social em todas as esferas da vida.

No contexto brasileiro, essa reflexão ganha contornos urgentes. A fé cristã não substitui o papel do Estado nem oferece soluções simplistas para problemas complexos, mas pode — e deve — formar consciências, incentivar práticas solidárias e inspirar ações que promovam justiça social. Ignorar as desigualdades ou espiritualizá-las excessivamente compromete a credibilidade do testemunho cristão no espaço público.

Como destaca Timothy Keller, a justiça não é um tema periférico do cristianismo, mas parte central da mensagem bíblica. Uma fé que fecha os olhos para a injustiça social corre o risco de se tornar irrelevante ou, pior, cúmplice de estruturas que perpetuam exclusão e sofrimento.

Em tempos de polarização, discursos rasos e soluções fáceis, o cristianismo reformado pode oferecer uma contribuição valiosa ao debate público: a convicção de que fé verdadeira se expressa em amor ativo, misericórdia concreta e compromisso com a justiça. Em um país tão desigual como o Brasil, a fé cristã precisa ser mais do que discurso. Precisa ser presença, serviço e esperança.

* Pastor na Igreja Presbiteriana de Pinheiros

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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