Thiago Stelle*
Todo início de ano vem com o mesmo impulso: listas, previsões, resoluções e uma vontade quase automática de entender o que é preciso aprender, corrigir ou se tornar nos próximos meses. No marketing, esse movimento costuma cair na mesma pergunta: afinal, quem é o novo profissional da área?
Talvez o problema não seja a pergunta, mas a pressa em respondê-la. Quanto mais o mercado fica complexo, maior é a busca por modelos, como perfis ideais, competências obrigatórias e mapas do que temos ou não que aprender.
Isso até traz algum conforto, eu sei. Mas raramente traz direção para o que é realmente preciso. Na prática, muitas dessas listas existem mais para aliviar a ansiedade do presente do que para ajudar os profissionais a trabalharem melhor.
O marketing mudou brutalmente nas últimas décadas não só pela tecnologia, mas porque as pessoas mudaram. A atenção ficou escassa, a paciência diminuiu e a cobrança por impacto passou a fazer parte do dia a dia. Assim, marcas que antes eram pensadas em construção no longo prazo hoje são avaliadas em ciclos bem mais curtos. A pergunta “isso me ajuda a vender?” deixou de aparecer só “quando a casa está caindo” e acompanhar os times de marketing diariamente e entender esse ambiente importa mais do que dominar qualquer ferramenta específica. Publicidade
É nesse cenário que inteligência artificial, automação e dados precisam ser colocados no lugar certo. Eles não são troféus de modernidade e nem definem os profissionais, mas são respostas práticas a um mercado mais exposto e mensurável. Quando bem usados, organizam o que precisa de estrutura e tiram da criatividade o peso de se justificar sozinha. O acesso a dados de varejistas, por exemplo, ao Retail Media e à integração entre o físico e o digital ampliou a capacidade de leitura do consumo. Hoje, é possível entender melhor como uma marca performa dentro das lojas, onde cresce, onde perde força e em que contexto isso acontece de forma granular. A pergunta sobre vendas continua existindo e deve continuar, mas a diferença é que, sustentada por dados, ela deixa de ser uma ameaça constante ao marketing. É claro que métricas não substituem repertório, porém reduzem a incerteza que corta a coragem.
Talvez, então, o grande desafio hoje não seja aprender tudo nem correr atrás de cada nova ferramenta, mas sim reaprender a fazer perguntas melhores. É importante sair do slide, observar comportamento fora do computador, consumir cultura, ouvir conversas reais, entender contradições. A tecnologia pode ajudar a processar isso mais rápido, se fizer sentido, mas vale lembrar que ela não substitui olhar, curiosidade e repertório. Portanto, estudar, planejar e usar ferramentas para estruturar o que exige, de fato, estrutura continua sendo fundamental.
Ao mesmo tempo, é preciso preservar espaço para o erro, para o não totalmente correto, para o caminho que não estava no plano. As coisas mais interessantes raramente nascem da execução perfeita, pois surgem da combinação de referências, experiências e associações únicas que cada um carrega consigo.
No fim, o que mudou não foi o profissional, foi o ambiente, que ficou mais mensurável e atribuído e menos tolerante ao improviso vazio, mas ainda profundamente dependente de sensibilidade, julgamento e imaginação. Não faz muito sentido procurar um “novo profissional de marketing” como se ele já estivesse pronto – o que precisamos é entender que o trabalho mudou e que, diante disso, menos ansiedade por respostas prontas e mais atenção às perguntas certas é o melhor jeito de começar o ano.
* Head de Marketing & Insights da Unlimitail
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia









