Pai não chora ao deixar filhos na creche?

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René Dentz*

Há frases que nascem para denunciar injustiças — e muitas vezes o fazem com razão —, mas que, ao mesmo tempo, correm o risco de produzir outra violência: a de apagar o singular em nome da generalização.Publicidade

Dizer que “nunca se viu um homem chorar ao deixar o filho na creche” aponta para algo real: existe, sim, uma desigualdade histórica na distribuição do cuidado. Mas quando essa constatação vira regra universal, ela deixa de iluminar e passa a obscurecer. O problema não está no diagnóstico cultural, e sim em sua absolutização.

A experiência humana não cabe em estatísticas — nem mesmo se esgota na clínica. Há homens que choram, e não apenas em segredo. Há mulheres que não se reconhecem nas culpas que lhes foram atribuídas. Há sujeitos que escapam. Sempre escapam. Reduzir o humano a categorias fixas é trocar uma crítica necessária por um novo determinismo.

A psicanálise já advertia para isso. Jacques Lacan, um de seus principais nomes, insistia que o sujeito não se reduz aos significantes que o nomeiam. “Homem” e “mulher” não são destinos fechados, mas posições atravessadas por história, desejo e falta. Quando esquecemos isso, a crítica deixa de libertar e passa a normatizar. É aqui que a filosofia ajuda a respirar.

Emmanuel Lévinas lembrava que o outro nunca se reduz ao que dizemos sobre ele — ele sempre nos escapa e nos convoca. Jean-Luc Marion fala de experiências que nos excedem, como o amor, o sofrimento e o perdão, impossíveis de serem encaixados em fórmulas. Paul Ricoeur, por sua vez, mostrou que o humano só pode ser compreendido como narrativa: uma história em construção, marcada por conflitos e reinterpretações. Esses autores convergem em um ponto essencial: o ser humano não é um dado, é uma história.

E há um alerta decisivo nesse debate. Hannah Arendt, ao refletir sobre a “banalidade do mal”, mostrou que a violência nem sempre nasce de intenções monstruosas, mas muitas vezes da ausência de pensamento — da incapacidade de julgar, de discernir, de se colocar no lugar do outro. O mal pode ser banal justamente quando deixamos de pensar. Quando repetimos discursos prontos. Quando aderimos sem refletir.

É nesse ponto que a generalização se torna perigosa: ela dispensa o pensamento. Substitui o discernimento por fórmulas. E, ao fazer isso, pode participar, ainda que de modo sutil, dessa banalização. Até mesmo discursos críticos podem reproduzir a violência que pretendem combater. Trocam-se os lados, mas não a lógica.

Esse risco não é apenas teórico. Ele aparece também em campos como a própria psicanálise, quando perde sua vocação de escuta e se fecha em circuitos de autoconfirmação. Em vez de escutar, enquadra. Em vez de interpretar, repete.

O problema se amplia no mundo contemporâneo. Ideias, quando se tornam ideologias fechadas, tornam-se violentas. Não escutam — classificam. Não acolhem — enquadram. Em tempos de redes sociais e discursos segmentados, o pensamento corre o risco de virar produto: algo feito para adesão, não para reflexão. Nesse ponto, já não há resistência, mas repetição. Falta diálogo. Falta filosofia. Falta crítica. Falta, sobretudo, a coragem de pensar. E falta escuta.

Escutar é interromper o automatismo das certezas. É permitir que o outro apareça não como representante de um grupo, mas como alguém singular. É resistir ao impulso de classificar antes de compreender.

Nesse horizonte, o perdão se torna decisivo. Não como obrigação moral, nem como esquecimento, mas como possibilidade. Uma possibilidade rara, mas transformadora: a de interromper o ciclo da repetição da violência. Em um tempo saturado de acusações e identidades rígidas, o perdão não é ingenuidade — é ruptura.

Sim, é preciso criticar o machismo e as estruturas que produzem desigualdade. Mas não à custa do singular. Não transformando a crítica em caricatura. Porque toda vez que dizemos “os homens são” ou “as mulheres são”, deixamos de ouvir alguém. E talvez, naquele pai silencioso à porta da creche, haja um choro que nunca encontrou lugar para existir.

* Psicanalista, pós-doc pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, comentarista da Rádio Itatiaia e pai da Sofia e da Beatriz

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”

Fonte: Hoje em Dia

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