Especialistas explicam como precificação dos combustíveis é feita – Foto: Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE
Os avanços dos conflitos no Oriente Médio e os empecilhos na abertura do Estreito de Ormuz, no Irã, mantém acesas as incertezas sobre o futuro do mercado petrolífero em todo o mundo. No Brasil, os preços praticados nos postos de combustível continuam a surpreender o consumidor final e as altas não param.
Gasolina, diesel e gás natural veicular são produtos cuja principal origem é o petróleo, daí a explicação do porquê esses combustíveis são tão sensíveis às variáveis do mercado de petróleo que já chegou a custar, em um único dia, quase US$ 120 o barril.
Especialistas explicam que o preço do petróleo direciona não somente o valores dos derivados da commodities, mas também o preço de outros derivados energéticos como o diesel, gasolina, óleo combustível.
Isso é comum em períodos de conflitos ou de qualquer tipo de instabilidade que possa afetar a produção e demanda, é quase impossível a gente ver o preço de um produto derivado não ter o mesmo tipo de comportamento do que a commodity
Gabrielle Moreira – especialista em precificação de combustíveis da Argus
A cotação do petróleo é informada em dólares por barril e cada barril equivale a 158,9 litros. Imagina ter que comprar milhares de litros para abastecer uma nação? Seja no mercado automobilístico, industrial, residencial e entre outros. Só para você ter ideia, até mesmo o sabão de lavar pratos ou uma sacola plástica de supermercado é feita a partir do produto.
Mas você deve se perguntar: “O Brasil é referência na produção de petróleo. Por que os preços dos combustíveis são tão afetados pelo o que acontece fora do país?”
Você tem total razão. O país realmente se destaca por suas produções petrolíferas nacionais. Desde a descoberta do produto no país até as explorações da camada pré-sal, o Brasil viveu anos de ouro e se destacou por ser um dos maiores produtores do mundo. Essa realidade, entretanto, começou a ser desmontada quando a Petrobras se desfez de algumas operações e refinarias.
O Brasil pode ser potência na produção do produto, mas carece, e muito no refino, que são os processos realizados para transformar o óleo cru em derivados de valor comercial como diesel, gasolina, GLP, querosene, entre outros.
Por esse motivo, o Brasil ainda é um dos países que mais importam o produto para consumo final ou produção terciária. No único comunicado desde o início da guerra, a Petrobras informou que importa combustíveis por rotas não afetadas pelo conflito e que não há risco de desabastecimento, mas a dependência de importação evidencia uma pressão para a política de preços dos combustíveis.
Como o preço do petróleo global interfere no Brasil
A especialista em economia internacional Daniela Cardoso Pinto explica que toda essa turbulência do mercado internacional impacta diretamente o preço dos combustíveis importados. Ou seja, quanto mais caro o preço do barril do petróleo, mais caro será o repasse dessa diferença ao consumidor.
Daniela cita dois principais impactos econômicos que afetam os aumentos desses combustíveis nos postos de combustíveis:
- Inflação de custos;
- Variável do câmbio.
A inflação de custos, ou de oferta se refere às variações nos preços causadas por aumento de custos dos ofertantes de bens e serviços da economia, neste caso, no aumento do barril do petróleo. Já a variação do câmbio reflete no custo do dólar, que enfrenta alta volatilidade desde o início da guerra.
“Então você tem um dólar que se torna mais caro e a importação de uma matéria prima mais cara que vai repercutir nos demais preços da economia. Então essa é a forma que a alta do petróleo importado causa para nós”, disse a professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP).
Com a disparada dos ataques em usinas de produção petrolíferes e de gás natural no território iraniano, instituições e entidades ligadas ao setor energético iniciaram uma série de medidas para acompanhar as mudanças internacionais, e entre essas ações está a do aumento no preço do combustíveis em alguns estados, como na Bahia, cujo política de preços não é responsabilidade da Petrobras.
Aos poucos e quase que incontrolavelmente, os postos de combustíveis anunciaram aumentos exorbitantes. Mas qual é o prazo correto para que os postos anunciem esse aumento no preço do petróleo?

O Brasil pode ser potência na produção do produto, mas carece em refino | Foto: Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE
Segundo Gabriele, é difícil determinar um prazo mínimo ou máximo de repasse porque o país acompanha os preços do produto no mercado à vista e contratos futuros. Ela explica que é comum se ver no mesmo dia qualquer tipo de modificação de preço, mas não daria para dimensionar isso devido a alguns critérios de mercado.
“É o caso do diesel. Cerca de 20, 30% de todo o volume consumido no Brasil é importado, e para esse produto chegar aqui no Brasil, demora mais ou menos 30 dias a partir da data de conclusão da compra. Então mesmo que o preço do petróleo dos derivados do contrato futuro do diesel tenha recuado quando esse produto chegar aqui, o que o importador vai ter em mente é o valor de fechamento da compra”, explica a profissional
Práticas predatórias nos postos de combustíveis
Daniela Cardoso explica ainda que paralelamente aos aumentos internacionais, o Brasil enfrenta uma prática abusiva nos postos de combustíveis, que são as altas desenfreadas da gasolina e do diesel.
Segundo ela, os postos aproveitam o momento da guerra para lucrar em cima do dinamismo da economia aberta e que muitas vezes os produtos sofrem alta mesmo sem anúncios de reajustes.
Vai caber muito mais ao consumidor saber quem está cobrando muito acima do mercado ou acima da oscilação do preço internacional. O ideal é que os postos esperem o estoque velho de combustível com preço mais barato acabar para aplicar novos ajustes no novo produto, mas não é o que ocorre
Daniela Cardoso Pinto – professora de economia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP).
Há risco de desabastecimento no Brasil?
As especialistas apontam sobre um cenário marcado por desabastecimento dos combustíveis no Brasil. Gabriele relembra que apesar de o país produzir boa parte dos combustíveis, como por exemplo o diesel, que chega a cerca de 80%, e a gasolina a cerca de 90%, há uma parcela de dependência dos produtos importados.
“Mesmo que a gente tenha condições para pagar os preços que estão sendo pedidos no mercado internacional, precisamos ter uma quantidade de produtos disponível para o Brasil, porque tem muito fornecedor que prefere negociar com outras origens que pagam mais do que a gente. Também precisamos de navios disponíveis para entregar porque apesar de a gente ter disposição, ter caixa para adquirir esses produtos, se não termos o transporte do produto para chegar até aqui, nada adianta”, finaliza ela.
Fonte: A Tarde









