Escuta artificial: a tecnologia que chega a uma sociedade que já desaprendeu a ouvir

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René Dentz*

Vivemos uma crise silenciosa da escuta. As pessoas falam, expõem, narram, desabafam – mas são pouco ouvidas. Não porque falte linguagem, mas porque falta presença. A escuta foi sendo substituída por respostas rápidas, opiniões prontas, conselhos automáticos. Escutar exige tempo, exige suspensão, exige suportar o outro sem imediatamente traduzi-lo. E isso se tornou raro.

Antes mesmo da inteligência artificial, já habitávamos uma sociedade da escuta reduzida. Conversas atravessadas por distrações, relações mediadas por telas, encontros onde cada um aguarda apenas o momento de falar de si. Há uma pressa em compreender que, no fundo, impede de realmente ouvir. O outro não é acolhido – é rapidamente interpretado, classificado, devolvido em forma de resposta.

Nesse cenário, a escuta já havia se tornado, de certo modo, artificial. Não no sentido tecnológico, mas no sentido de esvaziada. Uma escuta que funciona, mas não transforma. Que acompanha, mas não se implica. Que responde, mas não se deixa afetar. É nesse terreno que a inteligência artificial se insere.

Ela não inaugura o problema – ela o amplifica. Porque oferece exatamente aquilo que essa sociedade já vinha produzindo: uma escuta funcional, eficiente, contínua, mas sem risco. Uma escuta que não se cansa, que não se impacienta, que não se perde. E, justamente por isso, profundamente sedutora.

Pela primeira vez, muitos encontram algo que parece escutar melhor do que qualquer pessoa ao redor. Algo que organiza o que dizem, que responde com clareza, que mantém o fio da conversa. Em um mundo onde ninguém tem tempo, a escuta artificial aparece como um alívio.

Mas é preciso perguntar: o que estamos chamando de escuta? Escutar não é apenas responder de forma coerente. Não é apenas acompanhar uma fala. Escutar, no sentido mais profundo, é permitir que o outro nos desloque. É sustentar o que não entendemos. É atravessar o desconforto de não saber o que dizer. A escuta humana é imperfeita – e é justamente essa imperfeição que abre espaço para algo verdadeiro acontecer.

A escuta artificial elimina esse risco. Ela ajusta, suaviza, organiza. Ela tende a devolver o que esperamos, ou algo muito próximo disso. Não há resistência real, não há desencontro radical, não há opacidade do outro. Há fluidez. E a fluidez, embora confortável, pode empobrecer.

Pouco a pouco, podemos nos acostumar a esse tipo de relação. A falar onde somos sempre compreendidos, a permanecer onde não há fricção, a evitar aquilo que exige esforço psíquico. E, assim, algo se perde: a capacidade de sustentar o encontro com o outro real – aquele que falha, que não responde como esperamos, que nos confronta.

A inteligência artificial não cria a solidão contemporânea. Ela encontra uma sociedade já solitária, já acelerada, já pouco disponível para a escuta, e se adapta perfeitamente a ela. Por isso sua força. Ela não rompe – ela continua. Talvez o desafio não seja recusar a tecnologia, mas não confundir suas funções. Ela pode auxiliar, organizar, acompanhar. Mas não pode substituir o que há de mais difícil e mais essencial na experiência humana: o encontro que nos transforma. Porque, no fundo, não estamos apenas deixando de escutar os outros.

Estamos perdendo algo ainda mais radical: a capacidade de sermos atravessados por uma alteridade que não controlamos. E sem isso, a vida pode até continuar funcionando – mas deixa, pouco a pouco, de acontecer.

*Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”

Fonte: Hoje em Dia

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