Ângela Mathylde Soares*
A questão é recorrente entre famílias e educadores: afinal, a alfabetização acontece ou não na Educação Infantil? A resposta exige transparência, responsabilidade pedagógica e conhecimento sobre o desenvolvimento infantil.
Do ponto de vista legal e pedagógico, a alfabetização formal não é o objetivo da Educação Infantil. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é clara ao estabelecer que não é finalidade o desenvolvimento integral da criança nessa fase, respeitando o tempo, corpo e as formas próprias para aprendizado. A alfabetização, no sentido de ler e escrever convencionalmente, é uma atribuição do Ensino Fundamental.Publicidade
Contudo, a recomendação não significa ausência de intencionalidade pedagógica. Pelo contrário. A Educação Infantil é o tempo da preparação para a alfabetização com o fortalecimento da linguagem oral, da escuta, do vocabulário, da narrativa, da curiosidade e da interação social. Durante esse período, o cérebro elabora a base para sustentar a leitura e a escrita no futuro.
Aqui, entra um aspecto negligenciado frequentemente: o corpo.
É importante entender que a neurociência é contundente ao apontar que o cérebro infantil aprende pelo movimento, pelo afeto e pela experiência concreta. Antes da letra, existe o equilíbrio, a coordenação motora, a lateralidade, o esquema corporal, a noção espacial e temporal. Não existe leitura sem organização corporal. Não existe escrita sem um corpo que sustente atenção, postura e intenção.
Uma exemplificação clara é que, quando a criança corre, pula, canta, dança, brinca de faz de conta e explora o espaço, não está “perdendo tempo”. Os pequenos estão organizando circuitos neurais essenciais para aprendizagem. O corpo é o primeiro caderno infantil.
O problema começa quando a educação infantil se transforma, precocemente, em um espaço de apostilas, cópias mecânicas e treino de letras. Ao silenciar o corpo, as exigências que o cérebro ainda não está pronto para sustentar são antecipadas. O resultado aparece mais tarde, sob a forma de dificuldades de aprendizagem, rejeição à escola, ansiedade e sofrimento emocional.
Alfabetizar não é acelerar processos, mas respeitar o desenvolvimento. A infância não deve ser reduzida a desempenho. As crianças precisam de vínculo, brincadeira, movimento e sentido para aprender.
A educação infantil não alfabetiza. A etapa prepara o cérebro, o corpo e a emoção. E, sem corpo, não há aprendizagem possível. Cuidar da infância é respeitar os tempos e isso também é educação de qualidade.
*Psicopedagoga e neurocientista da educação
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia









