Imagem: ChatGPT
O varejo brasileiro costuma viver ciclos de empolgação mais intensos do que a média global. Adota tendências rápido, fala sobre elas com paixão, mas nem sempre consegue sustentá-las na prática. Em 2026, essa distância entre discurso e execução tende a cobrar um preço ainda maior.
Ao cruzar o que se desenha nos grandes fóruns globais, como a NRF, com as dores reais do Brasil, custo, mão de obra, margem, informalidade, complexidade tributária e consumidor pressionado, algumas apostas ficam cada vez mais evidentes.
Não são apostas sobre o futuro distante. São apostas sobre quem vai conseguir continuar operando.
1. A era da IA como infraestrutura, não como diferencial
Em 2026, Inteligência Artificial deixa de ser um projeto especial e passa a ser parte do básico operacional. Quem ainda trata IA como inovação estará atrasado. Quem tratou como solução mágica provavelmente já se frustrou.
No Brasil, o impacto será desigual. Grandes redes conseguem absorver melhor a tecnologia. Pequenos e médios só terão resultado se usarem IA para reduzir fricção, tempo e custo, não para criar complexidade.
A pergunta deixa de ser “usa IA?” e passa a ser “ela está ajudando alguém a trabalhar melhor?”. Quem não conseguir responder isso com clareza, terá mais custo do que ganho.
2. Menos omnichannel, mais resposta rápida ao cliente
O discurso omnichannel já não convence ninguém. O consumidor brasileiro quer solução, não integração invisível.
Em 2026, vencem as operações que conseguem responder rápido, com clareza e sem empurrar o problema para outro canal. Troca, entrega, erro de preço, falha no estoque, tudo precisa ser resolvido no primeiro contato.
O varejo que ainda trata canais como silos vai sentir isso na forma mais cruel possível: perda de confiança e abandono silencioso.
3. A loja física como ativo estratégico, não como custo fixo
A loja física brasileira vai continuar existindo, mas com uma pressão brutal por produtividade. Aluguel, energia, gente e impostos não dão trégua.
Isso força uma mudança clara de função. Loja deixa de ser apenas ponto de venda e vira ponto de decisão, assistência, retirada, mídia e relacionamento.
Quem olhar a loja só como custo vai fechar. Quem enxergar como ativo estratégico vai redesenhar papel, layout, time e métricas. Menos metragem improdutiva, mais relevância por metro quadrado.
4. O colapso da vantagem competitiva rápida
O Brasil sente com força um fenômeno que eu venho chamando de colapso da oportunidade. Ideias boas são copiadas rápido, formatos se saturam em meses e a vantagem competitiva dura cada vez menos.
Em 2026, não vence quem tem a melhor ideia, vence quem executa, ajusta e protege melhor essa ideia. A velocidade de réplica exige clareza estratégica, não impulsividade.
Negócios que vivem de modinha, hype ou atalho vão sofrer. A disciplina volta a ser um diferencial raro.
5. O fator humano como limite real do crescimento
Por trás de toda tecnologia, existe gente cansada, mal treinada e sobrecarregada. Em 2026, esse será o maior gargalo do varejo brasileiro.
Empresas que investirem em clareza de processo, autonomia real e uso inteligente de tecnologia para reduzir carga cognitiva vão conseguir crescer com menos atrito.
As demais vão continuar rodando mais rápido para chegar ao mesmo lugar.
O varejo brasileiro de 2026 não será definido pela tecnologia que adota, mas pela maturidade com que decide o que não fazer.
E essa talvez seja a decisão mais difícil de todas.
Caio Camargo é especialista em inovação no varejo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte: Mercado&Consumo









