Andre Purri*
O trabalho deixou de ser apenas uma equação entre horas dedicadas e salário no fim do mês. Um levantamento com 3.200 profissionais, feito pela Reward Gateway, ajuda a explicitar algo que já vinha aparecendo de forma difusa no comportamento do mercado: a remuneração continua importante, mas perdeu o monopólio da decisão sobre onde e como trabalhar.
O dado mais revelador do estudo é que muitos trabalhadores aceitariam abrir mão de um aumento de 10% no salário em troca de outros elementos da experiência profissional. Não se trata de rejeição ao dinheiro, mas de uma mudança na hierarquia de valor. Bem-estar, autonomia, desenvolvimento e pertencimento passaram a competir diretamente com a remuneração como critérios de escolha.
Quando 58% dos entrevistados dizem preferir uma empresa que cuide do bem-estar a um aumento salarial, o que está em jogo não é um benefício pontual, mas uma expectativa de base. O trabalho deixa de ser apenas fonte de renda e passa a ser também um ambiente que precisa ser psicologicamente sustentável. Em paralelo, o fato de 55% valorizarem gestores que demonstram cuidado com a equipe reforça algo decisivo: a experiência cotidiana do trabalho importa tanto quanto o pacote de benefícios.
Outro eixo dessa transformação é a autonomia. Para 54% das pessoas, controlar a própria agenda pesa mais do que ganhar mais, e 47% priorizam a flexibilidade de local. Isso não é apenas um efeito colateral do trabalho remoto, mas a consolidação de uma expectativa mais estrutural sobre como o tempo deve ser organizado. O trabalhador contemporâneo não está apenas vendendo sua força de trabalho; está negociando o controle sobre a própria rotina.
O estudo também mostra que a ideia de crescimento profissional mudou de natureza. Metade dos entrevistados prefere oportunidades de aprendizado a um aumento imediato de salário, e 37% valorizam o reconhecimento frequente. Isso indica que a progressão de carreira deixou de ser um evento isolado, como uma promoção ou um bônus, para se tornar uma experiência contínua, sustentada por feedback, aprendizado e visibilidade.
Por fim, o pertencimento aparece como um dos fatores mais subestimados da relação de trabalho. Para 50% dos profissionais, sentir-se parte da empresa vale mais do que um aumento salarial. Não é um dado trivial. Ele sugere que, em um mercado cada vez mais competitivo e fragmentado, a permanência não se sustenta apenas por incentivo financeiro, mas por identidade, cultura e coerência de valores.
O ponto central não é que o salário perdeu relevância, mas que ele deixou de operar sozinho. Ele continua sendo uma condição necessária, mas já não é suficiente. O que está em curso é uma ampliação do conceito de valor no trabalho, que passa a incluir dimensões antes consideradas “intangíveis” como parte central da decisão econômica.
Ignorar esse movimento é insistir em uma leitura antiga do mercado de trabalho. As empresas que continuarem tratando o salário como principal, ou único, instrumento de retenção tendem a perder espaço para aquelas que entendem que a experiência do trabalho é hoje um pacote mais complexo, no qual dinheiro, bem-estar, autonomia e propósito não são elementos separados, mas interdependentes.
*CEO e cofundador da Alymente
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia









