O culto ao corpo impossível

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Ramon Marcelino*

A morte do fisiculturista Gabriel Gunley, aos 22 anos, provoca comoção. Mas deveria provocar também desconforto.

Porque talvez a pergunta mais importante não seja “do que ele morreu?”, mas sim: que tipo de sociedade estamos construindo quando homens tão jovens acreditam que precisam ultrapassar os próprios limites biológicos para serem admirados?

Gabriel fazia parte de uma geração criada diante das câmeras, dos filtros e da lógica da performance permanente. Um corpo deixou de ser apenas um corpo. Tornou-se marca, moeda social e símbolo de valor pessoal.

Hoje, músculos representam disciplina, desejo, sucesso e masculinidade. O problema é que o corpo humano possui limites biológicos, e nem todos nascem com o mesmo potencial para ganhar massa muscular.

A ciência mostra claramente que a genética influencia força e hipertrofia. Mas o esporte moderno (e principalmente as redes sociais) parece cada vez menos disposto a aceitar limites naturais.

É aí que entram os esteroides anabolizantes.

E é importante deixar claro: não estamos falando de reposição hormonal médica. Muitos atletas utilizam doses extremamente altas, frequentemente combinando várias substâncias sem acompanhamento adequado.

O resultado é um experimento fisiológico contínuo em corpos jovens.

As consequências já são conhecidas: infertilidade, dependência psicológica, alterações hepáticas, arritmias, insuficiência cardíaca e aumento do risco de morte súbita.

Independentemente de a miocardiopatia hipertrófica apontada como possível causa da morte de Gabriel ter origem genética ou relação com anabolizantes, existe um ponto fundamental: essa condição deveria ter sido identificada no contexto de um atleta profissional.

A miocardiopatia hipertrófica é uma das principais causas de morte súbita em atletas jovens. Por isso, atletas profissionais deveriam passar por avaliação cardiovascular adequada, com exames capazes de identificar fatores de risco e reduzir a chance de tragédias como essa.

Porque existe uma hipocrisia coletiva nesse debate.

Todos condenam o anabolizante em público, mas o algoritmo recompensa o físico extremo. Patrocinadores financiam. Redes sociais impulsionam. Seguidores admiram. O mercado monetiza.

A miocardiopatia hipertrófica é uma das principais causas de morte súbita em atletas jovens. Por isso, atletas profissionais deveriam passar por avaliação cardiovascular adequada, com exames capazes de identificar fatores de risco e reduzir a chance de tragédias como essa.

Porque existe uma hipocrisia coletiva nesse debate.

Todos condenam o anabolizante em público, mas o algoritmo recompensa o físico extremo. Patrocinadores financiam. Redes sociais impulsionam. Seguidores admiram. O mercado monetiza.

E talvez essa seja a parte mais cruel: Gabriel não é apenas uma vítima individual dessa lógica. Existem milhares de meninos olhando para ele neste exato momento.

Porque muitos jovens cresceram acreditando que parecer extraordinário virou obrigação. O problema é que eles tentam alcançar corpos frequentemente incompatíveis com a fisiologia humana natural.

Vende-se a imagem. Esconde-se o custo biológico.

Gabriel perdeu a vida aos 22 anos. Mas talvez a tragédia não termine nele. Porque muitos jovens continuam sendo empurrados para a mesma lógica: a ideia de que parecer comum virou fracasso.

Talvez o verdadeiro problema da nossa geração seja justamente esse: nós deixamos de admirar corpos humanos e começamos a admirar corpos impossíveis.

*Médico endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP)

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje e Dia

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