Comer no automático: como pular refeições e jantar tarde podem aumentar o risco de diabetes Crédito: Imagem: Prostock-studio | Shutterstock
O diabetes tipo 2 vem crescendo no Brasil. Dados divulgados em 2025 pela Vigitel, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde, mostram que o percentual de adultos diagnosticados com diabetes passou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024 nas capitais brasileiras.
Segundo a endocrinologista Maria Penha, do Hospital Regional de Assis, unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e gerenciada pelo Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (Cejam), o problema não está apenas no excesso de açúcar, mas na soma de comportamentos cotidianos, que afetam o funcionamento hormonal do organismo ao longo do tempo.
“Quando a pessoa fica muitas horas sem comer, o corpo entende aquilo como uma situação de alerta. Há liberação de hormônios ligados ao estresse e o organismo passa a trabalhar para preservar energia. Depois, quando acontece uma refeição muito grande ou rica em carboidratos simples, ocorre um pico importante de glicose no sangue e o pâncreas precisa produzir grandes quantidades de insulina rapidamente”, explica.

Esse movimento repetido diariamente favorece a resistência à insulina, condição em que as células passam a responder com menor eficácia ao hormônio responsável por controlar os níveis de glicose no sangue. Como consequência, o organismo produz cada vez mais insulina para tentar manter o equilíbrio glicêmico, aumentando o risco de diabetes tipo 2 ao longo dos anos.
A endocrinologista afirma que muitos hábitos considerados normais contribuem silenciosamente para esse processo. Pular o café da manhã, passar o dia apenas com café, almoçar muito tarde, substituir refeições completas por alimentos ultraprocessados e jantar próximo da hora de dormir são alguns exemplos frequentes.
“Sono ruim, estresse crônico, alimentação irregular, obesidade e sedentarismo também têm impacto importante. A obesidade, inclusive, é um dos principais fatores ligados tanto ao desenvolvimento quanto à dificuldade de controle do diabetes tipo 2”, ressalta a especialista. Ela destaca que as Diretrizes 2025 da Sociedade Brasileira de Diabetes reforçam que a redução do peso corporal melhora o controle glicêmico, aumenta as chances de remissão da doença e deve ser um objetivo permanente no tratamento.
O horário das refeições também deve ser observado. Estudos apontam que o organismo reduz sua eficiência para metabolizar glicose durante a noite. Isso significa que refeições pesadas e tardias tendem a gerar maior dificuldade no controle glicêmico, especialmente quando associadas a longos períodos de jejum ao longo do dia.
Além disso, depois de muitas horas sem comer, há maior tendência a episódios de compulsão e escolhas alimentares impulsivas, geralmente ricas em açúcar, gordura e produtos ultraprocessados. Outro comportamento cada vez mais comum é o chamado “comer automático”. Fazer refeições trabalhando, mexendo no celular ou sem pausas adequadas dificulta a percepção de fome e saciedade.
“O cérebro e o metabolismo precisam de certa previsibilidade. Quando a alimentação acontece sempre de forma desordenada, o corpo permanece em estado constante de adaptação e isso interfere diretamente na ação da insulina”, frisa Dra. Maria. O estresse também ocupa papel central nesse cenário. A liberação contínua de cortisol, hormônio associado à tensão e à privação de descanso, aumenta a produção de glicose pelo fígado e pode levar ao acúmulo de gordura abdominal, combinação ligada ao desenvolvimento de alterações metabólicas.
Apesar do cenário preocupante, especialistas reforçam que a prevenção não depende de mudanças radicais. Pequenas adaptações já ajudam a reduzir riscos. Manter horários minimamente regulares para comer, evitar longos períodos sem alimentação, priorizar alimentos naturais, incluir fibras e proteínas nas refeições e respeitar o sono são medidas importantes para preservar a saúde.
“Diabetes não surge de repente. Ele costuma ser resultado de pequenos desequilíbrios repetidos diariamente durante muitos anos. Por isso, olhar para a rotina alimentar com mais atenção é uma das formas mais importantes de prevenção”, orienta a endocrinologista.
Fonte: Jornal Correio









