Em um mundo cada vez mais digital, escreva à mão

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Por Ângela Mathylde Soares*

A tecnologia facilita muito os processos cotidianos que, anteriormente, eram considerados trabalhosos, por demandarem maior tempo em uma rotina cada vez mais acelerada para execução. A escrita é uma dessas atividades que, aos poucos, é substituída pelo ato de digitar, porém o método tradicional ainda possui uma série de benefícios.

Os jovens costumam ser os mais adeptos às modernidades. Pensando no âmbito escolar, é comum encontrar aqueles que ainda utilizam os cadernos e livros, devido à praticidade e custo dos materiais, apesar de realizarem trabalhos com auxílio da internet. Entretanto, nas universidades, por exemplo, é cada vez mais comum ver estudantes com computadores e tablets.

Muitas vezes, o acompanhamento das classes é feito por aparelhos com ferramentas para anotações, com uma série de recursos e modelos para praticidade, modernidade e dinamismo. Contudo, apesar de o material possuir uma boa aparência e uma série de vantagens, como ser compacto e leve, o aprendizado tende não ser tão intenso quanto seria caso a matéria fosse copiada à mão.

A verdade é que a escrita é considerada melhor que a digitação, porque escrever à mão requer mais esforço cognitivo, estimulando a conectividade entre regiões sensoriais e motoras. Assim, fica mais fácil fixar o conteúdo na memória.

Diferentemente da memória a curto prazo – responsável por armazenar poucas quantidades de informação por alguns segundos ou minutos -, o tipo longo prazo retém dados por dias ou anos, ilimitadamente. O processo ocorre após uma série de etapas, envolvendo a informação codificada pelo cérebro, consolidada pelo hipocampo e, posteriormente, armazenadas e distribuídas pelo córtex para serem resgatadas, quando necessário.

A neurociência estabelece fatores como a carga emocional, repetição, associação com conhecimentos prévios e boas noites de sono contribuem profundamente para o salvamento das memórias na “aba” de longo prazo.

Deve-se considerar que, para escrever sobre um determinado assunto, o indivíduo precisa, primeiro, possuir conhecimento sobre o tema, o que só ocorre após uma leitura prévia, o primeiro passo para estimular o cérebro. Posteriormente, ao escrever, a pessoa usa suas próprias palavras e ainda necessita organizar os pensamentos, analisar e corrigir o que foi escrito, contribuindo para a construção da memória e, consequentemente, aprendizagem.

É preciso recordar que os benefícios de escrever vão muito além da educação, devendo ser um estímulo realizado por todos para o bem do funcionamento cerebral. Nas crianças, a ação contribui para o desenvolvimento do cérebro, das atividades motoras e a linguagem, contribuindo assim com a alfabetização e o reconhecimento de letras, números e sons, criando uma conexão para descoberta de palavras.

Pensando na terceira idade, o exercício é considerado um dos estímulos mais eficazes para o cérebro atrofiado, devido aos anos de experiência, a ponto se tornar mais lento e seletivo, durante essa fase da vida e, não, inativo. A condição acontece justamente em razão do processo natural do envelhecimento, perda de neurônios e a diminuição de conexões. 

Além da escrita, outros hábitos também mantêm o estímulo cerebral, ativando várias áreas importantes para o funcionamento do órgão, sendo os mais benéficos: as atividades manuais, musicais, jogos, exercícios sensoriais, físicos, meditação e mudanças na rotina.

* Neurocientista, psicanalista e pedagoga

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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