Enchentes têm sido frequentes com a mudança climática Crédito: Bruno Peres/ Agência Brasil
Uma área grande de morro, conurbação e de adensamento populacional, além do fato de ser uma capital com um grande número de habitantes por quilômetro quadrado. A geografia da região e a alta ocupação do solo urbano, bem como os períodos de alteração climática, são alguns dos motivos que fizeram com que Salvador fosse escolhida para receber um equipamento inédito no Brasil.
A cidade será a sede do primeiro Centro de Informação em Saúde e Clima do Brasil, que será inaugurado, nesta quarta-feira (1), às 15h, na Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (Suvisa), na Barra. Trata-se de um núcleo estratégico que vai servir para o monitoramento de eventos climáticos extremos e para dar apoio à tomada de decisões e respostas rápidas e integradas para o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas na saúde da população.

Alguns anos atrás, talvez a implantação de um equipamento com essa função não acontecesse. Em meio à mudança climática e aos eventos extremos nos últimos anos, contudo, trata-se de uma urgência. De acordo com o secretário da Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Mozart Sales, a definição por Salvador foi justamente por por suas características diversas de ocupação do solo urbano.
“Em um período chuvoso excessivo, é uma cidade que tem um risco grande de desabamentos, de alterações do ponto de deslocamento de terra e morros e também de alagamentos”, diz Sales, que é médico, doutor em Saúde Pública e criador de programas como o Mais Médicos e o Agora Tem Especialistas, em entrevista ao CORREIO. “Portanto, ter um centro de tratamento de resiliência de clima é importante para uma previsibilidade das situações climáticas adversas, principalmente agora, por conta do processo de transição climática no mundo inteiro e que repercutem no Brasil”, acrescenta.
A ideia é que, a partir da organização no centro, haja mais capilaridade nas ações de resposta, inclusive com a integração com órgãos locais, como a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros “Com a nossa estrutura de saúde, a gente entende quais são as regiões de maior risco e se prepara para debater movimentos e táticas de mobilização, de resgate das pessoas, de resposta do aparelho de saúde com mais rapidez. Isso é fundamental”, explica.
A presença do equipamento em um território próximo aos agentes locais e com a possibilidade de debater a realidade de forma contínua e cotidiana daria, portanto, maior capacidade de responder aos eventos extremos de maneira mais rápida e adequada.
Para Mozart Sales, essa é uma preocupação que tem crescido em todo o mundo. Ele cita as discussões realizadas no ano passado, durante a COP30, em Belém, para avaliar não apenas como as alterações climáticas podem provocar tragédias e catástrofes, mas o comportamento dos equipamentos de saúde a esses eventos.
Alguns eventos já causam impactos palpáveis na saúde. Esse é o caso das ondas de calor, que têm sido cada vez mais frequentes no país. Agora, há a expectativa de um El Niño intenso nos próximos meses. Segundo o secretário do Ministério da Saúde, é possível que esses episódios provoquem quadros de insolação, desidratação e dificuldade de resposta a problemas orgânicos de populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, idosos e pacientes com comorbidades excessivas.
Casos extremos de ondas de calor podem provocar, ainda, situações como alteração volêmica (desequilíbrio na quantidade de líquidos e sangue que circulam no corpo) por desidratação extrema e até quadros de choque hemodinâmico. Pessoas com comorbidades como problemas cardiovasculares podem até passar por situações fatais.
Outros aspectos citados por Sales são quadros de agravamentos de insuficiência renal, que podem ocorrer, inclusive, durante enchentes, que levam à dificuldade de acesso à água potável e a medicamentos. Há, ainda, situações de risco por doenças de caráter gastrointestinal e até leptospirose.
Além da interlocução com órgãos federais e locais, o centro será integrado à Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS). A unidade deve reforçar a capacidade do sistema de prevenir, monitorar e responder aos efeitos das mudanças climáticas.
De acordo com o Ministério da Saúde, além de salvar vidas nas emergências de saúde pública e calamidades, a ideia também é oferecer apoio logístico aos estados e municípios da região Nordeste do país. Uma Base Descentralizada da Força Nacional do SUS em Salvador também será inaugurada nesta quarta-feira, às 17h, no Centro Administrativo da Bahia (CAB). As duas cerimônias de inauguração devem contar com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Segundo o secretário Mozart Sales, a atuação da Força Nacional do SUS deve ser de forma proativa, tentando perseguir a capacidade de atuar de maneira preditiva aos fenômenos climáticos mais intensos. A unidade deverá ter rapidez na resposta de chegada no território, na mobilização dos profissionais e na construção adequada de treinamento. Treinamentos foram feitos em eventos de grande aglomeração urbana, como o Círio de Nazaré, manifestação religiosa que reúne milhões de pessoas em Belém (PA).
“Esse treinamento e aperfeiçoamento constante vão deixar a Força e as estruturas locais capacitadas para responder de imediato quando tiver algum evento adverso”, diz. Os profissionais que vão atuar na base são da área de vigilância, de monitoramento de desastres, da atenção à saúde e de epidemiologia
Fonte: Jornal Correio









