A saudade dos bons tempos (para quem?)

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René Dentz*

É curioso observar como algumas pessoas sentem saudade de um tempo que, examinado com um mínimo de honestidade histórica, era consideravelmente pior para quase todo mundo. Repetem que antigamente existia respeito, que as famílias eram melhores, que os filhos obedeciam e que o país tinha ordem. Tudo parecia funcionar maravilhosamente, sobretudo para quem podia mandar, enquanto os demais aprendiam a virtude do silêncio. A nostalgia é realmente confortável quando conseguimos apagar da memória aqueles que pagavam a conta dos nossos supostos bons costumes.

No Brasil, essa saudade assume contornos particularmente interessantes. Somos um país construído sobre séculos de escravização, mas ainda encontramos quem romantize uma sociedade na qual cada pessoa conhecia seu lugar. Jessé Souza demonstra como a herança escravocrata permanece inscrita nas relações de classe, nas hierarquias sociais e na naturalização da humilhação. Quando alguém lamenta que hoje ninguém respeita mais ninguém, convém perguntar se está falando de respeito ou simplesmente da perda do direito de humilhar sem ser questionado.

A idealização da ditadura militar segue lógica semelhante. Curiosamente, aqueles que mais reclamam de censura nas democracias contemporâneas frequentemente demonstram uma ternura comovente por um regime que censurava jornais, perseguia opositores, torturava e assassinava. É uma concepção bastante peculiar de liberdade: todos podem falar, desde que concordem comigo. O restante seria desordem.

Nietzsche compreendeu que o ressentimento transforma a própria impotência em acusação contra o mundo. A psicanálise acrescentaria que nem toda saudade é amor pelo passado; algumas nostalgias escondem a incapacidade de elaborar perdas, sobretudo a perda de privilégios. O sujeito não suporta que mulheres decidam, que crianças questionem, que trabalhadores reivindiquem e que grupos historicamente excluídos conquistem reconhecimento. Chama tudo isso de decadência, quando, frequentemente, está apenas descobrindo que o mundo deixou de girar ao redor de suas certezas.

Enquanto isso, a Constituição de 1988 consolidou direitos fundamentais, o SUS universalizou o direito à saúde, a educação ampliou seu alcance e milhões de brasileiros passaram a reivindicar possibilidades antes reservadas a poucos. Evidentemente, persistem desigualdades profundas, mas seria intelectualmente desonesto confundir problemas atuais com a superioridade de um passado marcado por exclusões ainda maiores.

Até a educação dos filhos parece incomodar os nostálgicos. Antigamente, uma criança apanhava e aprendia a respeitar. Hoje sabemos que medo não é respeito e que violência não é pedagogia. Para alguns, entretanto, uma criança que pensa virou um problema, provavelmente porque um adulto que não pensa sempre considerou a obediência uma grande virtude.

É preciso compreender como o medo e o desamparo podem ser politicamente convertidos em ódio. O ressentido precisa encontrar culpados pela transformação do mundo, porque reconhecer avanços exigiria abandonar a fantasia de que sua autoridade perdida representava uma ordem moral superior.

A democracia incomoda justamente porque permite que aqueles que antes precisavam permanecer calados finalmente tenham voz. E isso é insuportável para quem confunde seus privilégios com valores universais.

O passado merece ser estudado, não idolatrado. Nossos filhos não precisam herdar nossas correntes, mas conquistar liberdades que sequer conseguimos imaginar. Afinal, quem sente tanta saudade de um mundo em que poucos tinham direitos deveria perguntar se sente falta dos bons tempos ou dos tempos em que podia mandar nos outros.

* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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