Médicos gastroenterologistas orientam sobre a importância de buscar avaliação especializada caso os desconfortos abdominais sejam persistentes

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Barriga inchada e gases em excesso: quando a dificuldade de arrotar pode ser um problema de saúde Crédito: Imagem gerada pela IA

Arrotar é uma reação natural do organismo, mas algumas pessoas simplesmente não conseguem fazer isso. Quando a incapacidade de liberar o ar pela boca vem acompanhada de barriga estufada, pressão ou desconforto no peito, ruídos de borbulhamento na garganta e excesso de gases, pode ser sinal de uma condição chamada disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD), conhecida como síndrome do não arrotar.

A condição está relacionada ao funcionamento do músculo cricofaríngeo, localizado na região do esfíncter esofágico superior. Segundo o otorrinolaringologista e laringologista Guilherme Catani, médico do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor adjunto de Otorrinolaringologia da instituição, esse músculo participa do mecanismo que permite a saída do ar acumulado no esôfago.

Em condições normais, o músculo relaxa para que o ar seja eliminado pelo arroto. Na R-CPD, esse relaxamento não acontece adequadamente, dificultando a liberação do gás e favorecendo seu acúmulo. “O que chama a atenção na R-CPD é que a pessoa não consegue arrotar e, muitas vezes, considera isso simplesmente uma característica do próprio corpo. Quando essa incapacidade vem acompanhada de estufamento, ruídos de borbulhamento, excesso de gases ou desconforto no peito, é importante considerar que pode existir uma alteração relacionada ao músculo cricofaríngeo”, explica o especialista.

Quais são os principais sintomas?

Uma revisão sistemática publicada em 2024, que reuniu 13 estudos e 472 pacientes, identificou a incapacidade de arrotar em 99,8% dos casos analisados. Dor ou distensão abdominal e/ou torácica apareceram em 95,4% dos pacientes. Já os ruídos de borbulhamento foram relatados em 84,9%, enquanto a flatulência excessiva atingiu 75,9%.

Outro levantamento, publicado em 2025 e baseado em 17 estudos com 826 pacientes, encontrou resultados semelhantes. A distensão abdominal foi registrada em 95,7% dos casos, a dor no peito em 86%, e tanto os ruídos de borbulhamento quanto a flatulência excessiva apareceram em 80,2%. A revisão mais recente também apontou que 55,5% dos pacientes relataram o início dos sintomas ainda na infância. Em 28% dos casos, havia histórico familiar da condição.

Para Catani, a associação entre os sintomas é um dos principais sinais que podem levantar a suspeita da síndrome. “A história clínica é muito importante porque, em muitos casos, o paciente consegue reconhecer que nunca arrotou ou que não consegue liberar o ar pela boca, mas não relaciona isso aos outros sintomas. É justamente essa associação que pode levantar a suspeita de R-CPD e indicar a necessidade de uma avaliação especializada”, afirma.

Como é feito o diagnóstico?

Apesar do avanço das pesquisas sobre a síndrome, ainda não existe um exame único considerado padrão-ouro universalmente estabelecido para confirmar a R-CPD. A investigação é predominantemente clínica, baseada no histórico do paciente e na identificação dos sintomas.

Em situações específicas, exames como a manometria esofágica de alta resolução podem ajudar na avaliação do funcionamento do esôfago e dos mecanismos envolvidos na eliminação do ar. A condição ainda é considerada provavelmente subdiagnosticada. Isso significa que pessoas que convivem há anos com a incapacidade de arrotar e outros desconfortos podem não reconhecer que os sintomas estão relacionados a uma alteração específica.

Qual é o tratamento para a síndrome do não arrotar?

A aplicação de toxina botulínica no músculo cricofaríngeo é o tratamento mais descrito na literatura médica atual. O objetivo é promover o relaxamento muscular e permitir que o ar acumulado seja eliminado por meio do arroto. O procedimento, porém, não é indicado automaticamente para qualquer pessoa que tenha dificuldade para arrotar. É necessário avaliar o conjunto de sintomas, investigar outras possíveis causas e confirmar se o quadro é compatível com a R-CPD.

“É importante deixar claro que não estamos falando simplesmente de aplicar toxina botulínica em qualquer pessoa que diga não conseguir arrotar. A avaliação precisa considerar o conjunto de sintomas e excluir outras possibilidades. Quando o quadro é compatível com R-CPD, a toxina botulínica pode ser uma opção terapêutica porque atua justamente no músculo que precisa relaxar para que o ar seja eliminado”, explica Catani.

Ainda não há uma estimativa definitiva de quantas pessoas apresentam a síndrome na população. Por isso, o reconhecimento dos sintomas e a avaliação especializada são importantes para identificar os casos. “Quando uma pessoa percebe que nunca conseguiu arrotar e convive há anos com esses sintomas, vale investigar. O fato de o problema ser pouco conhecido não significa que o desconforto precise ser considerado normal ou simplesmente atribuído ao excesso de gases”, conclui o médico.

Fonte: Jornal Correio

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