O açúcar no sangue pode envelhecer o cérebro? Estudo revela associação preocupante Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O excesso de glicose no sangue pode estar relacionado a um envelhecimento mais acelerado do cérebro, mesmo antes do aparecimento de sintomas de doenças neurodegenerativas. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Molecular Psychiatry, que identificou uma forte associação entre níveis elevados de açúcar circulando no organismo e um cérebro biologicamente mais envelhecido.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Jilin e da Universidade Médica da China, que analisaram dados do UK Biobank, um dos maiores bancos de informações médicas do mundo. O trabalho reuniu exames de ressonância magnética, informações genéticas e análises metabólicas de milhares de participantes.
Com auxílio de inteligência artificial, os pesquisadores desenvolveram modelos capazes de estimar a idade biológica do cérebro de cada voluntário. Em seguida, compararam esses resultados com diversos marcadores presentes no sangue para identificar quais deles estavam mais relacionados ao envelhecimento cerebral.
Ao todo, foram identificados nove metabólitos associados ao processo de envelhecimento do cérebro. Entre todos eles, a glicose apresentou a associação mais forte. Segundo os pesquisadores, pessoas com níveis mais elevados de açúcar no sangue tendiam a apresentar um cérebro biologicamente mais velho do que indicava sua idade cronológica. Essa diferença é conhecida na literatura científica como brain age gap, expressão utilizada quando a idade biológica do cérebro supera a idade real da pessoa.
Para o pós-doutor em Neurociências e membro do Centro de Pesquisas e Análise Heráclito (CPAH), Fabiano de Abreu Agrela, os resultados reforçam a importância da saúde metabólica para preservar o funcionamento cerebral ao longo da vida. “O cérebro depende de um equilíbrio metabólico muito delicado. Quando há excesso persistente de glicose, aumentam processos como inflamação, estresse oxidativo e alterações na função dos vasos sanguíneos, fatores que favorecem o envelhecimento cerebral e comprometem a saúde dos neurônios”, explica.
Alterações podem surgir antes dos sintomas
Um dos aspectos considerados mais relevantes pelos autores é que as alterações cerebrais podem ocorrer anos antes do aparecimento de doenças neurodegenerativas ou de perdas cognitivas perceptíveis. Ao combinar exames de imagem, análises metabólicas e inteligência artificial, o estudo conseguiu identificar sinais precoces desse envelhecimento, o que pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e acompanhamento mais personalizadas.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o trabalho demonstra uma associação consistente entre glicose elevada e envelhecimento cerebral, mas não estabelece uma relação direta de causa e efeito. Isso significa que níveis elevados de açúcar no sangue não determinam, por si só, o desenvolvimento de doenças neurológicas, embora representem um fator modificável que merece atenção.
Cuidar da glicose pode beneficiar também o cérebro
Os autores defendem que compreender os fatores capazes de acelerar o envelhecimento cerebral é um passo importante para criar estratégias mais eficazes de preservação das funções cognitivas durante o envelhecimento. Entre as principais recomendações estão manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, controlar doenças metabólicas, realizar acompanhamento médico e evitar picos persistentes de glicose no sangue.
Segundo Fabiano de Abreu, a ciência vem demonstrando cada vez mais que a saúde do cérebro está diretamente ligada ao equilíbrio metabólico do organismo. “Cada vez mais entendemos que saúde cerebral e saúde metabólica caminham juntas. Cuidar dos níveis de glicose não significa apenas prevenir diabetes, mas também criar condições para que o cérebro permaneça saudável e funcional por muito mais tempo”, conclui o especialista.
Fonte: Jornal Correio









