Álcool pode piorar ansiedade, depressão e insônia; veja quando o consumo vira um sinal de alerta

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Alcoolismo Crédito: Shutterstock

O consumo de bebidas alcoólicas faz parte da cultura e da socialização no Brasil, mas quando a bebida passa a ser usada para aliviar ansiedade, tristeza, estresse ou frustrações, pode surgir um ciclo difícil de interromper. O alívio inicial tende a ser passageiro, enquanto o consumo frequente ou excessivo pode contribuir para alterações de humor, insônia e aumento de sintomas ansiosos e depressivos.

O alerta ganha força durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção do suicídio e cuidado com a saúde mental. Segundo o Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, 20,4% dos adultos consumiram pelo menos seis doses de bebida alcoólica em uma mesma ocasião, padrão considerado consumo excessivo. Em 2006, esse índice era de 15,6%.

Para a psicóloga Andreia Mann Silva, do Eco Medical Center, em Curitiba, o início precoce do consumo de álcool é influenciado por fatores individuais, familiares, sociais e culturais. A associação da bebida à diversão, às celebrações e à socialização contribui para sua naturalização. Entre adolescentes e jovens, influência dos pares, necessidade de pertencimento, experimentação e busca por autonomia também podem favorecer a iniciação.

Nessa fase, o sistema nervoso central ainda está em maturação, especialmente em funções relacionadas ao planejamento, tomada de decisões, controle inibitório e regulação emocional. Por isso, a exposição ao álcool está associada a maior vulnerabilidade a comportamentos de risco e a problemas relacionados ao consumo posteriormente.

“O início precoce não determina que uma pessoa desenvolverá um transtorno por uso de álcool, mas constitui um importante fator de vulnerabilidade”, explica a especialista. Segundo Andreia, a evolução para um padrão problemático depende da interação de fatores como quantidade e frequência do consumo, padrão de uso, aspectos familiares e genéticos, contexto psicossocial e presença de sofrimento psíquico.

Beber para aliviar emoções pode piorar o sofrimento

Um dos principais sinais de alerta está na função que o álcool passa a ocupar na rotina. A bebida pode provocar inicialmente uma sensação de relaxamento e redução da tensão, fazendo com que algumas pessoas recorram a ela diante de ansiedade, tristeza, estresse ou frustração.

O problema é que esse alívio é temporário. O consumo frequente ou excessivo pode contribuir para alterações de humor, irritabilidade, aumento de sintomas ansiosos e agravamento de sintomas depressivos. Com isso, pode se formar um ciclo em que a pessoa bebe para tentar aliviar o sofrimento, mas as consequências do consumo acabam intensificando esse sofrimento posteriormente.

“Mais importante do que perguntar apenas quanto uma pessoa bebe é compreender qual função o álcool passou a ocupar em sua vida. Quando a substância se torna uma das principais estratégias para lidar com emoções ou situações difíceis, o padrão de consumo merece atenção”, afirma a psicóloga.

Álcool também pode prejudicar o sono

A relação entre bebida e saúde mental também passa pelo sono. Embora possa provocar uma sensação inicial de relaxamento, o álcool não necessariamente proporciona um descanso reparador. O consumo pode alterar a arquitetura e a continuidade do sono, comprometendo sua qualidade.

A consequência pode formar outro ciclo. Uma pessoa ansiosa ou emocionalmente sobrecarregada pode recorrer ao álcool para tentar dormir, mas a piora do sono pode provocar fadiga, irritabilidade, alterações de atenção e dificuldade de regular as emoções no dia seguinte. Diante desse desconforto, o consumo pode se repetir.

“Na prática clínica, é importante avaliar o consumo de álcool em conjunto com sono, ansiedade, humor, regulação emocional e funcionamento cotidiano. Muitas vezes, o álcool está sendo utilizado como uma tentativa de manejar sintomas que precisam de avaliação e cuidado específicos”, explica Andreia.

Quando o consumo de álcool merece atenção?

Segundo a psicóloga, alguns sinais indicam que o consumo deixou de ser apenas ocasional e passou a representar um risco. Entre eles estão o aumento da quantidade ingerida, dificuldade para controlar o consumo, necessidade de doses maiores para obter o mesmo efeito e episódios recorrentes de binge drinking, quando há ingestão excessiva de álcool em uma única ocasião.

Também merecem atenção lapsos de memória, prejuízos no trabalho ou nos estudos, conflitos familiares e afetivos e perda de interesse por atividades que antes eram consideradas importantes. Outro sinal é quando a bebida passa a ocupar uma função central na regulação emocional.

Frases como “preciso beber para relaxar” ou “bebo para esquecer meus problemas” podem indicar que o álcool está sendo utilizado como principal recurso para lidar com emoções. Familiares e amigos também podem contribuir para a identificação precoce. A recomendação é evitar julgamentos e confrontos e escolher um momento em que a pessoa esteja sóbria para conversar sobre mudanças concretas percebidas. O objetivo não é diagnosticar ou culpabilizar, mas ajudar na percepção do problema e estimular a busca por atendimento profissional.

No contexto do Setembro Amarelo, sinais de sofrimento psíquico intenso, desesperança, isolamento, impulsividade ou mudanças importantes de comportamento também devem ser levados a sério. A identificação precoce do sofrimento e de padrões de consumo de risco pode ampliar as possibilidades de intervenção e cuidado.

“Prevenção também significa fortalecer vínculos, reconhecer sinais precocemente e facilitar o acesso ao cuidado. Quanto mais cedo identificamos sofrimento psíquico e padrões de consumo de risco, maiores são as possibilidades de intervenção, cuidado e recuperação”, reforça a especialista.

Fonte: Jornal Correio

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