René Dentz*
Vivemos numa época obcecada pelo controle. Controlar o corpo, os sentimentos, o tempo, a produtividade, a imagem, os relacionamentos. Tudo precisa ser administrado, monitorado, organizado. Tornamo-nos gestores da própria existência. Mas aquilo que mais profundamente fala de nós está justamente no que não conseguimos controlar.
Há algo revelador nos silêncios involuntários, nas pausas inesperadas, nas emoções desproporcionais, nos esquecimentos, nos gestos automáticos, nas lágrimas que surgem sem autorização. Existe uma verdade que aparece precisamente onde o discurso falha. Nem sempre o que dizemos é o que realmente nos habita.
Muitas vezes, as pessoas falam demais para não tocar o essencial. Outras vivem em atividade constante para não encontrar o vazio que carregam. O excesso de autocuidado, de desempenho e de ocupação pode esconder uma profunda dificuldade de permanecer consigo mesmo. Vivemos cercados por técnicas para melhorar a vida, mas cada vez mais incapazes de escutar aquilo que permanece subterrâneo dentro de nós. E esse é um dos dramas contemporâneos: desaprendemos a ouvir os não-ditos.
Há dores que não conseguem se transformar imediatamente em palavras. Há experiências que atravessam primeiro o corpo, o olhar, o silêncio. Nem tudo cabe numa explicação rápida, num diagnóstico instantâneo ou numa frase motivacional compartilhada nas redes. Existe uma dimensão da vida que permanece fragmentária, obscura e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Por isso a arte continua sendo tão necessária.
A arte não existe para controlar o real, mas para acolher aquilo que escapa às explicações completas. Uma música, uma pintura, um poema ou um filme muitas vezes nos atingem justamente porque conseguem tocar regiões da existência que ainda não sabemos nomear. As grandes obras raramente oferecem respostas prontas. Elas criam espaços de abertura. Permitem que algo apareça sem ser imediatamente reduzido a uma utilidade.
Por isso a arte incomoda tanto uma sociedade acelerada e pragmática. Ela interrompe. Suspende. Obriga a sentir. Recorda que o humano não pode ser reduzido apenas ao desempenho, à eficiência ou ao cálculo. Há verdades que só aparecem no fragmento.
O problema é que vivemos numa cultura que tenta eliminar qualquer espaço de silêncio. Estamos constantemente preenchendo o vazio com estímulos, informações, notificações, opiniões e entretenimento. O silêncio passou a assustar. A pausa parece improdutiva. A contemplação tornou-se quase um desperdício. Mas sem silêncio não existe escuta verdadeira. Nem dos outros. Nem de nós mesmos.
Há sofrimentos que não pedem soluções rápidas, mas presença. Há pessoas que não precisam de respostas imediatas, mas de alguém capaz de suportar junto aquilo que ainda não consegue ser dito. Amadurecer é aprender a escutar o que emerge nas entrelinhas da vida.
Porque o mais decisivo da existência raramente aparece nos discursos perfeitamente organizados que fazemos sobre quem somos. Muitas vezes, ele se revela exatamente onde fracassamos em nos explicar.
No fundo, somos menos aquilo que controlamos e mais aquilo que nos atravessa. E ainda existe esperança enquanto não perdermos a capacidade de escutar esse mistério silencioso que insiste em falar dentro de nós.
*Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia









