Testículos Crédito: Pexels
Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP identificou que infecções virais, incluindo a covid-19, podem estar associadas ao desenvolvimento de dor crônica no conteúdo escrotal, condição que afeta a qualidade de vida e ainda apresenta desafios para diagnóstico e tratamento.
Os resultados foram publicados na revista científica Basic and Clinical Andrology e reúnem evidências de que vírus como SARS-CoV-2, HIV e Zika podem desencadear processos inflamatórios no sistema reprodutor masculino. Segundo os pesquisadores, esses efeitos podem persistir mesmo após a resolução da infecção inicial, contribuindo para o surgimento de dor prolongada na região dos testículos.
A condição, conhecida como dor crônica no conteúdo escrotal (CSCP, na sigla em inglês), é caracterizada por desconforto contínuo ou intermitente nos testículos e estruturas adjacentes. Além de interferir em atividades cotidianas, a síndrome pode ser de difícil identificação. Estimativas indicam prevalência entre 0,4% e 4,75% da população mundial, e até metade dos casos não têm a causa identificada.
Papel dos vírus
Embora a CSCP seja tradicionalmente associada a infecções bacterianas, os autores destacam que agentes virais também podem desempenhar papel importante no desenvolvimento da condição, hipótese que ainda recebe pouca atenção na prática clínica.
De acordo com o coordenador do estudo, o professor Jorge Hallak, os impactos da Covid-19 sobre o sistema reprodutor masculino ainda não são totalmente compreendidos.
“Os efeitos agudos do SARS-CoV-2 são significativos, mas estamos vendo que os efeitos crônicos deixam mais sequelas do que imaginávamos. Este estudo mostra que essa doença exige cuidados redobrados, mesmo após cinco anos do início da pandemia”, explica.
Inflamação
Os pesquisadores apontam que a inflamação provocada por infecções virais pode afetar os nervos da região testicular e desencadear a chamada degeneração Walleriana, processo caracterizado por danos às fibras nervosas que podem resultar em dor persistente.
Embora não exista comprovação definitiva para todos os casos, o estudo identificou mecanismos biológicos que sustentam essa hipótese, entre eles a inflamação prolongada no testículo ou epidídimo, a ativação do sistema imunológico com liberação de substâncias que aumentam a sensibilidade à dor e possíveis respostas autoimunes capazes de manter o desconforto mesmo após a eliminação do vírus.
Além da dor crônica, os pesquisadores destacam que algumas infecções virais podem causar impactos sobre a fertilidade e a saúde hormonal masculina.
Estudos anteriores já demonstraram, por exemplo, que o SARS-CoV-2 é capaz de atingir células do sistema reprodutor e provocar respostas inflamatórias importantes. Entre os possíveis efeitos observados estão a redução da produção de espermatozoides; alterações hormonais e risco de infertilidade em determinados casos.
Mudanças
Os resultados reforçam a necessidade de ampliar a investigação de causas virais em pacientes com dor testicular persistente. Atualmente, a maioria dos protocolos clínicos concentra a avaliação em infecções bacterianas, o que pode dificultar a identificação da origem do problema.
Entre as medidas sugeridas pelos pesquisadores estão a inclusão da investigação de infecções virais nos protocolos diagnósticos; redução do uso desnecessário de antibióticos; adoção de abordagens multidisciplinares para o tratamento da dor crônica e o acompanhamento dos possíveis impactos hormonais e reprodutivos.
Apesar dos avanços, os pesquisadores ressaltam que ainda existem lacunas importantes sobre a relação entre infecções virais e dor crônica no conteúdo escrotal. Grande parte das evidências disponíveis atualmente é baseada em estudos observacionais, o que reforça a necessidade de pesquisas clínicas adicionais.
“O entendimento do papel das infecções virais é essencial para melhorar o diagnóstico, o tratamento e a qualidade de vida desses pacientes”, conclui o Prof. Dr. Jorge Hallak.
A pesquisa integra o Projeto Temático Pós-Covid-19 e analisou 61 estudos científicos selecionados por meio de uma revisão sistemática da literatura internacional.
Fonte: Jornal Correio









