A mineração pode se aproximar do fim. O território, não

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Gustavo Roque*

Nos últimos meses, passei boa parte do tempo entrando e saindo de minas, antigas áreas industriais, projetos de reconversão e cidades que, em algum momento, precisaram responder a uma pergunta que nós, no Brasil, ainda fazemos pouco: o que acontece com um território quando a mineração deixa de ocupar o lugar que teve durante décadas?

Foram dez países, entre América do Norte e Europa, nessa etapa das gravações de “Um Futuro Possível”, série documental que idealizei e co-produzimos com a Dromedário Filmes, para investigar diferentes caminhos construídos por territórios minerários. A minha ideia era ver de perto como outros lugares haviam enfrentado esse desafio, quais escolhas fizeram e, principalmente, o que poderíamos aprender com os acertos e erros.

Em Sudbury, no Canadá, desci quase dois quilômetros para conhecer o Snolab, laboratório instalado dentro de uma mina. Enquanto a atividade mineral mantém sua rotina, cientistas de diferentes países estudam matéria escura e algumas das questões mais complexas da física. Em outros pontos da viagem, encontrei cultura, tecnologia, educação e novas atividades produtivas em territórios cuja história econômica esteve, por muito tempo, ligada à mineração.

Ainda assim, depois de tantos quilômetros, volto ainda mais convencido de que seria um erro retornar ao Brasil com uma lista de projetos para copiar. O aprendizado mais importante está na lógica por trás deles: territórios que começaram a pensar no futuro enquanto ainda tinham recursos, infraestrutura, conhecimento e capacidade de fazer escolhas.

É essa lógica que considero decisiva para os nossos municípios minerários. Se sabemos que a mineração tem um ciclo, precisamos aproveitar o período em que ela gera mais arrecadação para construir condições capazes de permanecer quando sua participação na economia mudar. Esperar a exaustão da atividade para iniciar essa conversa significa começar justamente quando o território terá menos recursos e margem de decisão.

Isso coloca a Cfem em uma discussão muito mais ampla. Não apenas quanto se recebe ou onde se gasta, questões evidentemente importantes, mas sim quanto desse recurso consegue se transformar em capacidade que permaneça no município.

Por isso, defendo que projetos estruturantes podem resolver problemas imediatos e, ao mesmo tempo, preparar uma cidade menos dependente de uma única atividade. Quando toda a receita de uma atividade finita se converte apenas em resposta ao presente, a dependência é alimentada. Quando parte dela ajuda a criar novas capacidades, o município começa a comprar algo valioso: opções. 

Há também uma questão de tempo. Transformar a economia de um território dificilmente cabe em um mandato. Por isso, planejamento de longo prazo exige governança, indicadores, segurança jurídica e mecanismos capazes de preservar uma direção mesmo quando os governos mudam. 

Outra convicção que a viagem reforçou é que nem toda mina precisa virar alguma coisa extraordinária depois. O que vale, de verdade, é que o território e as pessoas que ali estão venham antes da ideia. 

Quem acompanhou por décadas as transformações provocadas pela mineração carrega um conhecimento que nenhum estudo técnico substitui. Comunidades, empresas, poder público, investidores e centros de conhecimento precisam participar dessa construção desde o início, porque uma nova economia dificilmente se sustentará se for desenhada longe de quem terá de viver nela. 

Por isso, precisamos criar condições para que cada município minerário consiga construir o seu futuro hoje e parar de tratar o pós-mineração como uma conversa para depois. O depois começa durante.

* Especialista em inovação e transição pós-mineração

 “Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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