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Durante muitos anos, quando o varejo brasileiro queria olhar para o futuro, o destino era quase sempre o mesmo: os Estados Unidos. Nova York se tornou nossa grande vitrine de inovação — e continua sendo uma referência importante. Mas, para quem trabalha com moda, ampliar o repertório geográfico também significa ampliar a capacidade de interpretar diferentes modelos de negócio, comportamentos e relações de consumo.
A Europa oferece uma perspectiva diferente. Não necessariamente porque esteja mais avançada em tecnologia ou porque tenha respostas prontas para os desafios do varejo, mas porque reúne, de maneira muito particular, duas forças que a moda conhece bem: tradição e reinvenção.
Em Paris, Milão, Londres e outras capitais europeias, convivem marcas centenárias que continuam encontrando novas formas de se relacionar com o consumidor, negócios que questionam modelos tradicionais e lojas que assumem funções que vão muito além da venda.
Há uma relação particular com a história, cultura, território e identidade. E isso ganha ainda mais relevância em um momento em que a tecnologia torna produtos, serviços e experiências cada vez mais fáceis de reproduzir.
É justamente aí que surge uma provocação importante para a moda brasileira. Enquanto boa parte da discussão sobre o futuro do varejo está concentrada em digitalização, Inteligência Artificial, eficiência operacional e novas experiências, quanto espaço estamos dando àquilo que torna uma marca reconhecível e desejada antes mesmo de a tecnologia entrar em cena?
A tecnologia pode melhorar uma operação, acelerar processos, personalizar uma experiência e abrir novas possibilidades de relacionamento, mas não substitui a construção de uma identidade. Uma loja pode ser tecnologicamente sofisticada e não deixar nenhuma lembrança.
Uma coleção pode acompanhar perfeitamente as tendências e, ainda assim, não construir uma linguagem própria. Esse talvez seja um dos paradoxos do varejo contemporâneo: quanto mais ferramentas se tornam acessíveis a todos, mais difícil pode ser criar diferenciação a partir delas.
Nesse cenário, repertório, identidade, contexto e consistência de marca ganham outro peso. Não como conceitos abstratos, mas como ativos que ajudam a explicar por que determinados negócios conseguem permanecer relevantes enquanto outros, mesmo acompanhando todas as novidades, acabam parecendo iguais.
Mas existe uma questão ainda mais importante quando se observa outro mercado: o que estamos vendo é uma tendência ou é a resposta daquele mercado às suas próprias circunstâncias? Uma loja de Paris não opera sob as mesmas regras, custos, fluxos turísticos, regulamentações, hábitos de consumo ou estrutura competitiva de uma loja brasileira. Uma estratégia que parece brilhante em um contexto pode produzir resultados muito diferentes quando transplantada para outro.
Por isso, uma boa viagem de pesquisa deveria começar menos pela pergunta “o que podemos copiar?” e mais por “por que isso funciona aqui?” Essa diferença muda completamente o olhar.
É sob essa perspectiva que a segunda edição da NRF Europa, em Paris, ganha interesse para o mercado brasileiro: não apenas pelos conteúdos apresentados nos palcos, mas pela possibilidade de observar o que acontece fora deles — nas ruas, nas lojas, nos novos formatos de negócio e nas escolhas que as marcas estão fazendo diante de um consumidor e de um ambiente regulatório muito particulares.
Ao longo dessa cobertura, serão observados alguns desses movimentos: as discussões sobre o futuro do varejo, a experiência concreta das lojas europeias, a presença de marcas brasileiras no mercado internacional e os desafios enfrentados por empresas que atravessam fronteiras em ambas as direções.
Mais do que reunir tendências, a proposta é colocar essas referências em perspectiva, porque talvez a pergunta mais interessante não seja o que o varejo europeu tem a ensinar à moda brasileira. Talvez seja o que observar a Europa pode nos fazer enxergar sobre o nosso próprio varejo. E algumas dessas respostas começam justamente por Paris.
Cecília Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte: Mercado&Consumo









