Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar! – Castro Alves
Fernando Pessoa diz em sua lírica que o poeta é um fingidor. E eu pergunto: e o professor formador de leitores, é o quê? Como são as palavras que movem o mundo, deixo-as fazendo comichão nos ouvidos dos antifreireanos. Sigo democratizando a leitura; movido pela fúria da literatura negra, periférica e marginal do grupo de rap paulistano Os Racionais MC’s, propus-me a ler uma de suas maiores obras: Sobrevivendo no Inferno (1997). Escrevi um projeto de Extensão (PIBEX/UEFS) em 2025, orientado pela professora Sônia Moreira Coutinho (UEFS), sou bolsista (PIBEX) e neste ano de 2026 estou lendo com os alunos do Clube de Leitura Colecionando Mundos, do Colégio Estadual Professor Carlos Valadares, que fica na minha Santinha (Santa Bárbara – BA).
Ouvindo e discutindo as letras das músicas após 29 anos, infelizmente continuamos a viver no inferno, com toda sorte de racismo, machismo, misoginia, intolerância religiosa e tantas outras mazelas. Eu fico com o desejo da criança da música “Mágico de Oz”: transformar o mundo como o de Oz. Mas é possível, sim; as palavras são mágicas, a literatura é magia. O Bruxo do Cosme Velho que o diga. A educação não faz magia, mas transforma vidas. Assim como tem me transformado — um sujeito preto, vindo da zona rural, filho de pais analfabetos, que, através das músicas dos Racionais (as quais ouve desde criança), tem se materializado na universidade (UEFS) e no chão da sala de aula, em um colégio público que não tem uma biblioteca nem um arsenal de livros.
Contudo, há um corpo docente e um corpo estudantil que têm fome de leitura; que dispõem de uma leitura de mundo tremenda, a qual precede o livro físico. Enquanto pesquisas apontam que o povo brasileiro lê pouco, os alunos do Clube de Leitura estão devorando literatura, da clássica à marginal. Com o ímpeto da professora negra Charlene Cristine Conceição de Jesus, os alunos participam de Feiras Literárias, projetos do Governo etc. Bendita é ela por fazer esse movimento de pôr os estudantes para pensar — alunos que já se formaram e permanecem no grupo, e alunos que ainda estão estudando. Chau tem a mão cheia.
Platão disse que a poesia não caberia na sua cidade. Que bom! Aqui em Santa Bárbara, Bahia, coube. Os quatro poetas mais perigosos do Brasil — Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay — nos mostram que, da ponte pra cá, antes de tudo tem a escola. A parte vaga de suas canções, tentamos preenchê-la. Malandragem de verdade é ler, é viver. Comungo com Sérgio Vaz quando diz que “Vida loka é quem estuda”.
Eu sentia que deveria devolver algo a essa cidade e ao Colégio Professor Carlos Valadares, em especial, por tudo que fizeram por mim quando eu ainda engatinhava como poeta e escritor. O colégio me oportunizou muitos momentos através da professora de língua portuguesa Bárbara Maria. O álbum que virou livro pela Companhia das Letras em 2018 é considerado a Bíblia Sagrada da periferia. O evangelho segundo os Racionais vai do santo ao profano — da saudação a Ogum a Jesus. Como discípulo, fiz minha missão ao levar as boas-novas: as músicas. O Hip-Hop, o Rap e os Racionais MC’s são interdisciplinares. O Clube de Leitura Colecionando Mundos também é uma extensão dos Racionais MC’s.
No mais, sou grato ao programa de extensão (PROEX/UEFS) por me fazer viver essa experiência extensionista da universidade, esse IDE horizontal no qual me formei ainda mais como um sujeito leitor e formador de leitores. Os conhecimentos e saberes dos alunos acolhidos me constituíram como um professor de literatura e de língua portuguesa mais humanista.
Machado x de Jesus (1996) é evangélico, poeta, cronista e contista, nascido em Santo Amaro da Purificação–BA. Atualmente vive na Fazenda Chapada, em Santa Bárbara–BA. Autor de dois livros publicados, é graduando em Letras – Português pela UEFS (2022.2 a 2026.2) e se dedica a pesquisar Os Racionais MC’s. Torcedor apaixonado do Santos FC, retrata em sua obra literária os dramas de um homem negro no Brasil.









