Máquinas de hemodiálise Crédito: Divulgação/Sesab
Uma pesquisa que conseguiu regenerar tecido renal danificado em camundongos ganhou um novo capítulo em 2026. Cientistas ligados à Duke-NUS Medical School, em Singapura, viram uma linha de desenvolvimento de medicamentos baseada no bloqueio da proteína interleucina-11 (IL-11) chegar à segunda fase de testes clínicos em seres humanos. O avanço representa mais uma etapa na investigação de terapias contra a fibrose, embora ainda não exista comprovação de que a técnica consiga recuperar rins humanos afetados por doenças crônicas.
A novidade foi anunciada pela instituição em 15 de janeiro deste ano. O medicamento experimental BI 765423, desenvolvido pela farmacêutica Boehringer Ingelheim, entrou em um estudo clínico de fase 2a para avaliar seu potencial no tratamento da fibrose pulmonar idiopática, doença caracterizada pela formação progressiva de cicatrizes nos pulmões.
Embora o teste seja voltado a uma doença pulmonar, a estratégia tem relação com a pesquisa sobre regeneração dos rins. Nos dois casos, o alvo é a IL-11, proteína associada a processos inflamatórios e à formação de tecido cicatricial em diferentes órgãos.
A investigação sobre os rins começou a ganhar destaque em dezembro de 2022, quando pesquisadores da Duke-NUS publicaram um estudo na revista científica Nature Communications. Na ocasião, eles demonstraram que o bloqueio da IL-11 poderia estimular mecanismos naturais de reparação dos rins em camundongos com lesões agudas e doença renal crônica.
Os cientistas utilizaram um anticorpo experimental para neutralizar a proteína e observaram redução da inflamação e da fibrose. Nos animais com doença renal crônica, o tratamento também favoreceu a multiplicação de células dos túbulos renais, estruturas fundamentais para o funcionamento dos órgãos.
Os resultados incluíram recuperação de massa renal e melhora de indicadores da função dos rins. O experimento mostrou, portanto, que parte dos danos provocados pela doença poderia ser revertida nos modelos animais estudados.
O interesse pela IL-11 está relacionado ao papel da proteína na fibrose. Quando os rins sofrem agressões persistentes, parte do tecido saudável pode ser substituída por cicatrizes, comprometendo progressivamente a capacidade de filtrar o sangue.
A pesquisa de 2022 identificou que a IL-11 também participa de alterações nas células renais que dificultam sua regeneração. Ao bloquear essa sinalização, os pesquisadores conseguiram reduzir os danos e favorecer a recuperação do tecido nos camundongos.
O desenvolvimento de medicamentos contra a proteína avançou a partir de pesquisas realizadas em Singapura. Parte desse trabalho deu origem à empresa de biotecnologia Enleofen Bio, cujos ativos terapêuticos foram adquiridos pela Boehringer Ingelheim em 2019 para desenvolvimento posterior.
Em janeiro de 2026, a Duke-NUS destacou a chegada do programa à fase 2a de avaliação clínica como um marco na transformação de descobertas de laboratório em possíveis tratamentos. Essa etapa busca reunir informações sobre segurança e eficácia do medicamento em pacientes com fibrose pulmonar idiopática.
Apesar da relação científica entre os estudos, o avanço não significa que a regeneração renal já tenha sido demonstrada em pessoas. O medicamento em avaliação clínica não está sendo testado, nesse estudo, como tratamento para insuficiência renal crônica.
Até outubro de 2026, não foram identificados resultados clínicos publicados que comprovem a capacidade do bloqueio da IL-11 de regenerar rins humanos. Também não há autorização para utilizar essa estratégia com o objetivo de substituir a hemodiálise ou recuperar a função renal de pacientes com doença avançada.
Enquanto a medicina regenerativa permanece em investigação, outras frentes de tratamento da doença renal crônica apresentam resultados em humanos. Em junho de 2026, um estudo publicado no New England Journal of Medicine avaliou a finerenona em 1.584 adultos com doença renal crônica sem diabetes.
Após 32 meses de acompanhamento, os participantes que receberam o medicamento apresentaram uma perda mais lenta da função renal em comparação com aqueles que utilizaram placebo. A pesquisa também identificou maior frequência de potássio elevado no sangue entre os pacientes tratados, um efeito adverso que exige atenção médica. Diferentemente da abordagem experimental contra a IL-11, a finerenona foi estudada para retardar a deterioração dos rins, não para regenerar tecido renal perdido.
Fonte: Jornal Correio









