Casos em alta: estatísticas do câncer de intestino na população jovem acendem sinal de alerta no país

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O que os números revelam sobre o câncer de intestino entre brasileiros com menos de 40 anos Crédito: Divulgação

O câncer de intestino costuma ser associado a pessoas mais velhas, mas os dados mostram que a doença também atinge adultos jovens. Entre 2020 e 2023, 2.767 pessoas com menos de 40 anos receberam diagnóstico de câncer de cólon no Brasil, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO). O número corresponde a 5,7% dos 48.550 casos registrados no período. Considerando pessoas com menos de 50 anos, foram 7.982 diagnósticos, o equivalente a 16,4% do total.

A morte da atriz e cantora Lua Blanco, aos 39 anos, nesse domingo (18), trouxe atenção para o tema. Conhecida por interpretar Roberta na versão brasileira da novela Rebelde, a artista estava em tratamento contra um câncer de intestino nos últimos meses. De acordo com informações divulgadas pela imprensa, a doença foi identificada em estágio avançado, e ela optou por manter o diagnóstico restrito a familiares e amigos próximos.

Feijão por Sebastião José de Araújo/Embrapa

Os dados brasileiros foram reunidos pela SBCO a partir de informações do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Entre os casos de câncer de cólon registrados de 2020 a 2023, 2.083 ocorreram em pessoas de 30 a 39 anos, 2.096 na faixa de 40 a 44 anos e 3.119 entre 45 e 49 anos.

O levantamento considera tumores no cólon, parte do intestino grosso responsável pela absorção de água e pela formação das fezes, e não inclui os tumores localizados no reto. Além disso, os registros abrangem hospitais participantes do RHC, públicos e privados, e não representam todos os diagnósticos realizados no país.

Mortes por câncer de cólon também atingem pessoas jovens

Os números de mortalidade reforçam a dimensão do problema. De acordo com outro levantamento da SBCO, feito com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, 2.579 pessoas com menos de 40 anos morreram de câncer de cólon entre 2020 e 2025. O total equivale a 2,9% dos 89.167 óbitos registrados pela doença no período. Entre pessoas com menos de 50 anos, foram 8.466 mortes, ou 9,5% do total. Os dados de 2025 ainda são preliminares.

A maior concentração de mortes entre pessoas com menos de 50 anos ocorreu na faixa de 40 a 49 anos, com 5.887 registros — mais que o dobro do observado entre os menores de 40 anos. Os números mostram que a doença pode ter consequências graves mesmo antes das idades mais associadas ao diagnóstico.

O câncer colorretal, nome usado para os tumores que atingem o cólon e o reto, está entre os mais frequentes no Brasil. Estimativas recentes do INCA apontam 53.810 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Excluídos os tumores de pele não melanoma, a doença ocupa a terceira posição entre os tipos de câncer mais diagnosticados no país, considerando homens e mulheres.

Câncer colorretal em jovens no mundo

As estimativas internacionais também mostram que a doença atinge adultos jovens. Segundo dados do GLOBOCAN para 2024, elaborados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), foram estimados 34.609 novos casos de câncer colorretal entre mulheres com menos de 40 anos e 37.342 entre homens da mesma faixa etária. Juntos, os números somam 71.951 diagnósticos no mundo.

Quando o recorte considera pessoas com menos de 50 anos, a estimativa chega a 209.678 novos casos, sendo 111.522 entre homens e 98.156 entre mulheres. Nessa faixa etária, o câncer colorretal corresponde a 8,6% dos diagnósticos de câncer entre homens e a 4,4% entre mulheres.

A mortalidade também é expressiva. Para 2024, o GLOBOCAN estima 62.096 mortes por câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos no mundo: 32.581 entre homens e 29.515 entre mulheres. Os dados internacionais incluem tumores de cólon e reto, enquanto o levantamento brasileiro do RHC citado anteriormente se refere apenas ao cólon.

Nos Estados Unidos, a proporção de diagnósticos em adultos mais jovens também chamou a atenção de pesquisadores. Um relatório da American Cancer Society publicado em 2023 apontou que, em 2019, 20% dos casos de câncer colorretal ocorreram em pessoas com menos de 55 anos, o dobro da proporção observada em 1995.

Para Paulo Henrique de Sousa Fernandes, cirurgião oncológico e presidente da SBCO, a prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais para reduzir o impacto da doença. “O câncer colorretal é um exemplo efetivo de como o rastreamento pode salvar vidas. Quando identificamos pólipos ou lesões iniciais, conseguimos intervir precocemente e impedir a evolução da doença”, afirma.

Colonoscopia e teste de fezes ajudam na detecção

Muitos tumores colorretais se desenvolvem ao longo de anos, a partir de pólipos — pequenas lesões que surgem na parede do intestino e que, em determinadas circunstâncias, podem evoluir para câncer. A colonoscopia permite identificar e remover essas lesões antes que se transformem em tumores malignos. Já o teste imunoquímico fecal (FIT) detecta pequenas quantidades de sangue nas fezes, mesmo quando não são visíveis a olho nu. Um resultado positivo pode indicar a necessidade de exames complementares.

Em diferentes diretrizes internacionais, o rastreamento de pessoas com risco habitual começa aos 45 anos. No Brasil, as recomendações e a organização do rastreamento dependem das diretrizes adotadas e das estratégias de saúde pública. Pessoas com histórico familiar importante, síndromes hereditárias ou outras condições que aumentam o risco podem precisar começar a investigação mais cedo.

Fernandes destaca que, entre pacientes jovens, um dos desafios é não descartar sintomas apenas porque a doença é mais comum em pessoas de idade avançada. Entre os sinais que merecem avaliação médica estão sangue nas fezes, mudanças persistentes no funcionamento do intestino — como diarreia ou constipação —, dor abdominal recorrente, anemia sem causa esclarecida e perda de peso involuntária. Esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas podem justificar investigação, independentemente da idade.

Hábitos de vida também influenciam o risco

Além do diagnóstico precoce, a prevenção envolve fatores relacionados ao estilo de vida. O consumo frequente de carnes processadas, o excesso de peso, o sedentarismo, o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas estão associados ao aumento do risco de câncer colorretal.

Uma alimentação rica em fibras, a prática regular de atividade física e a manutenção de um peso saudável podem ajudar a reduzir esse risco. Esses fatores, no entanto, não explicam todos os casos: a doença também pode surgir em pessoas sem fatores de risco conhecidos.

O tratamento depende da localização e da extensão do tumor, além das condições clínicas do paciente. A cirurgia tem papel importante principalmente quando a doença está localizada e pode ser realizada por técnicas convencionais ou minimamente invasivas, como videolaparoscopia e cirurgia robótica. Em determinadas situações, também podem ser indicadas quimioterapia, radioterapia e outras modalidades de tratamento.

Fonte: Jornal Correio

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