Quem abriu a janela do velório?

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Por Mauro Condé*

É assim que recordo aquela noite … a tristeza parecia ter fechado todas as janelas do velório.

A porta rangeu … um homem que vivia nas ruas entrou com chuva nos ombros … a água escorria do chapéu e formava uma pequena poça junto aos seus pés.

Alguns desviaram os olhos … outros o vigiaram … esperando que alguém o mandasse embora.

Ele percebeu … mesmo assim … caminhou até o caixão … tirou o chapéu e pousou a mão na madeira e disse:

– Ele me chamava pelo nome.

– Quando todos passavam depressa … ele parava … às vezes trazia café … noutras … apenas perguntava se eu ainda estava vivo.

 Então respirou fundo e acrescentou:

 – Não deixem este homem preso aqui … levem-no nas mãos que ajudou … no pão que repartiu … na coragem que despertou … a morte só vence quando o amor para de circular.

Ninguém respondeu … uma mulher lhe ofereceu uma cadeira.

Ele recusou com um sorriso e permaneceu ao lado do morto.

Havíamos notado primeiro suas roupas … só então percebemos que … entre todos nós … talvez fosse ele quem conhecesse uma parte do homem que enterrávamos.

Foi como se uma janela se abrisse.

Lembrei-me desta noite ao fazer uma viagem rumo ao conhecimento assistindo ao filme Hamnet.

Agnes e William perdem o mesmo filho … mas não sofrem da mesma maneira.

O filme não apressa a dor … não a organiza em etapas nem a transforma em lição.

Observa o que a ausência faz com uma casa … com dois corpos e com um amor que perdeu sua linguagem.

É tentador dizer a quem sofre que precisa “seguir em frente”.

A frase parece ajuda … mas muitas vezes soa como uma ordem para abandonar o morto.

Hamnet sugere outra possibilidade: continuar vivendo sem fingir que o amor terminou.

Nem toda dor se transforma em obra … nem toda perda produz sabedoria.

Ninguém tem obrigação de florescer sobre os próprios escombros.

Há manhãs em que levantar da cama já é uma forma de coragem … às vezes … sobreviver exige tudo.

Mas o bem recebido pode continuar seu caminho: num gesto repetido … numa história contada … num cuidado oferecido a quem ainda está aqui.

Talvez os mortos permaneçam assim … não como sombras que nos impedem de caminhar … mas como gestos que nossas mãos aprenderam sem perceber.

Antes de sair … o homem recolocou o chapéu … a chuva havia parado … na porta … voltou-se para o caixão e o chamou pelo nome.

Naquela noite … a morte fechara dois olhos.

Quem abriu a janela foi o morto.

*Palestrante … Consultor e Fundador do Blog do Maluco.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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