Por René Dentz*
Quando alguma coisa nos faz sofrer, nossa primeira reação costuma ser desejar que desapareça. Queremos dormir sem acordar durante a madrugada, deixar de repetir determinados comportamentos, não sentir aquela angústia que surge sem explicação, conseguir entrar em um relacionamento sem destruí-lo quando ele começa a se tornar importante. O sintoma aparece como um intruso: algo estranho que invade nossa vida e precisa ser retirado. A psicanálise introduziu uma ideia desconcertante: aquilo que nos incomoda também pode estar cumprindo uma função.
Em Inibição, sintoma e angústia, publicado em 1926, Freud procura compreender justamente essa complexidade. O sintoma não surge por acaso. Ele é resultado de um conflito e constitui uma formação de compromisso. De um lado existe um desejo, uma pulsão, uma representação que encontra dificuldades para ser admitida; de outro, existem defesas que procuram mantê-la afastada. O sintoma nasce dessa negociação. Por isso, ele produz sofrimento, mas ao mesmo tempo oferece alguma solução para um conflito que não conseguiu encontrar outro caminho.
Essa ideia modifica profundamente nossa maneira de olhar para determinados sofrimentos. Uma pessoa pode reclamar constantemente de relações nas quais se sente abandonada e, sem perceber, escolher repetidamente pessoas indisponíveis. Outra deseja reconhecimento profissional, mas cria conflitos justamente quando começa a ocupar posições de maior destaque. Alguém afirma querer construir uma relação amorosa estável, mas encontra razões para romper sempre que a intimidade aumenta. O que se repete nem sempre corresponde ao que conscientemente queremos. É por isso que Freud percebeu que o ser humano não coincide inteiramente consigo mesmo.
O sintoma possui, assim, uma dimensão enigmática. Ele diz alguma coisa sem dizê-la diretamente. A pessoa sabe que sofre, mas não compreende inteiramente por que continua repetindo aquilo que lhe causa sofrimento. Nesse ponto, a psicanálise se distancia de uma cultura que transforma rapidamente todo mal-estar em defeito a ser corrigido. Eliminar uma manifestação sem perguntar por sua função pode significar silenciar aquilo que ainda precisava ser escutado.
Isso não significa romantizar o sofrimento ou defender que os sintomas devam permanecer. Um sintoma pode limitar profundamente uma existência. A questão é compreender que seu desaparecimento não depende apenas de força de vontade. Muitas vezes, ele está ligado à história do sujeito, às suas relações, aos seus medos, desejos e modos de buscar satisfação. Existe alguma coisa profundamente pessoal na maneira como cada um sofre.
Por isso, a pergunta analítica não é somente “como faço isso parar?”, mas também: “por que justamente isso retorna em minha vida?”. Há sofrimentos que insistem porque ainda não puderam adquirir outra forma. Escutar um sintoma significa reconhecer que aquilo que nos perturba não é necessariamente um estrangeiro dentro de nós.
Em certas ocasiões, o sintoma é uma linguagem construída quando ainda não encontramos palavras.
* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de Filosofia da PUC-Minas, autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, comentarista da Rádio Itatiaia e pai da Sofia e da Beatriz
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia









